Grandes Peixes Vorazes


Música em mim: St. Anger (Metallica)

Aquele lugar. Aquele lugar era escuro. As luzes que piscavam tiravam de mim toda noção de tempo. Tudo ali parecia esquisito. Desde a temperatura muito fresca se comparada ao calor das ruas ao cheiro de chiclete no ar. E as pessoas. Essas pessoas maquiadas atraindo atenção para si. Cada uma e todas as meninas tinham um jeito estranho. Elas projetavam sensualidade pra cima de tudo de uma forma tão vulgar. Os caras por sua vez ficavam embasbacados com qualquer desses movimentos femininos e faziam para elas. Faziam tudo o que elas pediam. Era um círculo ridículo. Elas se insinuavam e os caras davam. Elas se insinuavam mais, os caras davam mais.

Mas deixando a antropologia de botequim de lado, eu tenho uma missão e nunca falho: Tem esse cara. Esse contratante já vem obcecando essa menina há um tempo. Ele a perseguia de todas as formas possíveis. Pela internet, nas ruas e na faculdade. Chegou ao ponto de entrar no mesmo curso que ela fazia só pra ficar perto. Ele era do tipo triste. Até que não era feio, mas era sem atitude. Isso eu percebi da primeira vez que nos encontramos. Totalmente perdido na vida.


É uma coisa natural em mim entender quem é a pessoa logo de primeira. Normalmente sempre tem uma música tocando na minha mente mas sempre que eu olho pra alguém por um tempo, uma música começa a tocar baseada em uma leitura inconsciente que eu tenho da pessoa em questão. E essa música é minha análise.

Minha relação com o mundo é toda baseada em músicas: eu meço o tempo por ela, eu me concentro através dela e eu a uso todo o tempo livre como distração. Quase sempre tem uma tocando na minha mente. Todas elas sempre tocam automaticamente em segundo plano, por baixo dos meus pensamentos principais. Tem um botão de aleatório ligado em algum lugar aqui dentro. E ele sempre manda a música certa, a trilha sonora de cada ocasião.

Música em mim: Nenhuma.

Esse é o principal motivo pra eu odiar esses lugares barulhentos e piscantes: eles suprimem toda a minha música. E sempre fico meio irritado quando isso acontece, tanto que cá estou pensando na minha missão e em como eu queria encaixar minha faca no abdome do DJ e destruir todo o equipamento de som dele. E depois ficar lá de cima vendo esses pequenos macacos coloridos me olhando embasbacados por ter destruído seu pequeno deus.

Minha menina tá ali pedindo uma bebida de menina. Eu tenho bebido uísque desde que cheguei, raramente bebo outra coisa. Coloco meu copo quase cheio em cima do balcão e me aproximo pra observá-la melhor. É uma menina bonita, não é de se admirar que meu contratante tenha ficado totalmente louco/apaixonado/louco.

Chegou a hora. Esse tipo de música atrapalha por demais o meu processo mas chegou a hora de relaxar cada músculo do meu corpo. O DJ colocou uma música quase perfeita: uma versão do Deadmau5 para There is a Light That Never Goes Out, dos Smiths. Os batimentos do meu coração estão desacelerando de forma controlada e cada respiração serve pra maximizar a entrada e saída de ar. Na minha mente a versão original dessa música vem tocando cada vez mais alto, já nem ouço mais qualquer barulho externo e cada frase me prepara e me empurra para o meu objetivo.

Sinto um prazer especial em fazer meu trabalho com essas músicas melancólicas dos anos 80. Lembro da minha infância. Cada toque do baixo, cada acorde vai me deixando mais leve. Já nem sinto meu corpo. Meus olhos fechados, minha pupila dilatada e uma raiva controlada se acumulando e fazendo jorrar adrenalina em cada dos meus músculos. Como ondas, esses momentos de relaxamento são trocados por outros de rigidez para em seguida relaxar novamente. Metricamente perfeito. Minha boca começa a produzir mais saliva e eu sei que chegou a hora. É irônico que nesses momentos mais prazerosos minha mente se esvazie.

Cada músculo se preenche de força e minha mente se esvazia. Chegou a hora: meu coração parece ter dez batimentos por minuto e tudo está tão lento... A menina pulou e parece estar ali parada no ar. O vestido, o cabelo, o sorriso. Tudo parece estar eternizado. Congelado. Não vejo mais ninguém perto dela, apenas manchas negras. Nela entretanto eu consigo enxergar cada detalhe: Os músculos se movendo sob a pele, o sistema circulatório bombeando o sangue, o ar saindo devagar e fazendo as narinas se dilatarem. Um pequeno detalhe de esmalte descascado em uma de suas unhas, uma espinha escondida sob a maquiagem. Sua última piscada, seu último sorriso e seus batimentos desacelerando.

Então tudo congela em seus lugares e eu só preciso caminhar lentamente. Tudo é uma mancha e ela é uma luz. Eu me sinto sendo arrastado por essa vontade: ela é minha luz e eu sou sua mosca. Cada passo eu queimo um pouco. Mas é inevitável. É bonito demais, encantador demais. Ali eu achei meu pequeno deus por essa noite. Um sorriso se abriu no meu rosto. Ela está ali no alto e parece ter sentido algo. Naquele fim de piscada nos olhamos nos olhos mas já era tarde... Todos estão no alto junto com ela e eu já estou desaparecendo na multidão. Nos olhamos e o sorriso dela se tornou um olhar perplexo colado num rosto em agonia. Meu sorriso de Mona Lisa precedeu um sorriso forte de quem toca o sol e não se queima.

Foi uma mistura entre um gemido e um grito e ela caiu. Eu continuei meu caminho como se nada tivesse acontecido. Tudo voltou a acelerar e todos se aglomeraram em volta dela. Mas é tarde, já foi sua última dança. O baço dela foi destruído. Minha faca de nove centímetros perfurou fundo o suficiente e em poucos segundos o sangramento interno lidera a falha total dos órgãos. Ninguém entendeu o que aconteceu. Vieram alguns seguranças mas não tem sangramento externo, meu corte é perfeito. Quando perceberem será mais que tarde. Peço mais uma dose do meu uísque e deixo a boate.

Música em mim: Adios (Rammstein)

Através de uma mensagem aviso ao cliente que o trabalho foi feito e não devemos mais nos encontrar. Jogo o celular no lixo, como em qualquer filme desses que a gente vê por aí com uma péssima trilha sonora. Mas jogar o celular fora realmente é a melhor opção. É hora de celebrar a conclusão do trabalho. A música voltou pra minha mente e meu corpo todo relaxou novamente. Merda, odeio ficar relaxado. Entro num bar uns cem metros depois da boate e um pouco antes que eu sente no balcão uma ambulância passa gritando, deve estar indo ao encontro da minha menina morta.

Eu costumo frequentar esse bar. Tem um grande balcão perto dos barmen e eles já sabem o que eu gosto de beber. Um deles me cumprimenta e me dá um copo com duas doses de uísque puro e sem gelo e num outro copo me serve chopp. Vem tocando agora na minha cabeça Ace of Spades, do Motorhead. O que contraria totalmente o samba ao vivo e o estilo da mulher bonita que tem me olhado desde que eu cheguei aqui.

Ela está numa mesa com algumas amigas mas eu tenho um problema em socializar depois de uma noite de trabalho. Todo aquele meu frenesi é como se fosse um orgasmo, a vontade acaba caindo um pouco. Mas o Ace of Spades tá tocando aqui mais forte, e eu resolvi buscar mais prazer por essa noite. Virei o uísque, virei a cerveja, fechei os olhos. Me alonguei e de leve, ainda com os olhos fechados, respirando fundo e fazendo o coração bater mais devagar, fui alongando o corpo e girando o pescoço. A sensação tá voltando pra mim. O silêncio, o mundo desacelerando. Fiz um movimento com o pescoço na direção da menina. Pra mim esse movimento levou horas. Pra quem quer que tivesse olhando, poucos segundos. Olhei para sua mesa e ela não estava mais lá.

No meu outro ombro alguém me cutuca, é ela. Ela com um sorriso diz que tinha me chamado algumas vezes e eu não ouvi. Um lindo sorriso, devo dizer. Entendi o que ela queria e puxei o isqueiro do bolso da camisa. Aproveitei e ascendi um pra mim também. Ficamos ali nos olhando durante 2 ou 3 horas ou quem sabe 2 ou 3 segundos?! Ainda estou vendo as coisas em câmera lenta. Ela toma a iniciativa novamente e se apresenta. Me diz que me olhou desde o momento que cheguei e que pareço ser interessante o suficiente pra que ela se interesse. Alguma coisa a ver com meu olhar. Retribui dizendo que também a vi no momento que cheguei. Ela senta do meu lado e pede uma dose do que quer que eu esteja bebendo e eu peço outra pra mim.

Brindamos com um sorriso e meu corpo já foi ficando totalmente rijo novamente. Tivemos uma conversa interessante sobre cinema e artes, escritores preferidos e outras merdas. Nos beijamos. Experimentei novamente. A sensação de tudo desacelerado e eu pude sentir seu hálito. Mesmo depois de diversas doses de uísque continua doce. A pele suave, perfume na medida certa. Enquanto eu a beijava fui examinando com todos os meus sentidos cada parte do seu corpo.

Músicas em mim: Roadhouse Blues (The Doors)

Quando percebi, estávamos nos beijando pelo que chuto terem sido 3 ou 4 minutos. Uma das amigas dela nos interrompeu dizendo que todas estavam indo embora. Nos olhamos novamente por alguns segundos/horas e ela disse que ficaria. Elas foram. Pagamos a conta e fomos também.

Já no táxi ficamos os dois meio incomodados. Talvez fosse o vento da janela aberta, talvez estivéssemos ficando sóbrios. Talvez fosse o taxista que com certeza percebeu como aquela mulher era espetacular e toda hora a olhava pelo retrovisor. Eu sou o tipo de cara que nunca pega uma mulher se perceber nela o menor dos defeitos. Eu a olho de cima a baixo, eu a toco, eu sinto o cheiro e o paladar. Eu ouço a voz. Os sons que ela faz no ambiente. Se a mulher não se comportar como um felino, se tudo o que eu reparar não parecer perfeito, desisto. Ficamos na porta do motel. Paguei a conta e sem querer vi a hora no relógio do taxista. Odeio ver a hora em qualquer lugar. Só me guio no tempo pelo meu padrão de contá-lo em músicas. Eram duas e quarenta da manhã.

Música em mim: Eu quero mesmo (Raul Seixas)

Fomos para a nossa suíte. Nos beijávamos e tirávamos a roupa, todo o meu corpo rijo. Ela pediu uma bebida e eu falei que tomaria um banho rápido. Voltei e ela estava lá espetacular, deitada nua sobre a cama. A luz perfeitamente ajustada nas curvas do seu corpo. Parecia proposital que cada ponto de luz escondesse e revelasse certas coisas que só aumentavam meu desejo. Desenrolei minha toalha na sua frente e nos beijamos. Ela me ofereceu uma dose. Bebi de uma só vez e a beijei novamente. Meu corpo todo parecia flutuar, eu estava relaxado. Enquanto nos beijávamos ela me virou e subiu em cima de mim. O mundo começou a desacelerar.

Música em mim: Boa Noite (Tropkillaz)

O mudo começou a desacelerar mas de forma diferente. Tudo desacelerou rápido demais e eu já não sentia meus músculos. Essa música totalmente fora de contexto tá tocando. Ela percebeu e me perguntou o que houve. Eu não consegui responder. Minha respiração. Não consigo respirar. Eu vi meu olhar pelo espelho do teto enquanto ela saía de cima de mim. Era o mesmo olhar de quem eu matava. Então eu percebi. Eu percebi tudo. Ela tinha o meu sorriso no rosto. E eu o rosto de todos os outros. Deitou do meu lado na cama e me abraçou, colocou sua perna sobre a minha e eu não sentia mais nada. Minha respiração não era mais controlada por mim. Meu coração. Meu coração parecia ter 5 batimentos por minuto, e todos fora de cadência.

Ela beijava meu pescoço e eu só sabia do beijo por olhar pelo espelho. Desesperador. Tudo ficou escuro. Tudo ficou nublado. Tudo menos ela. Ela me olhou pelo espelho e sorriu pra mim. Foi um sorriso irônico. E aquele seria o meu último sorriso. Ela sussurrou no meu ouvido as últimas palavras.

Como? Como eu fui tão idiota? Eu estou nesse ramos há anos, nunca fiz nada de errado. Já escapei de tantas emboscadas. Nunca deixei rastro, nenhum trabalho incompleto. Agora todo o foco estava ali no rosto dela, o hálito doce devia estar esquentando esse pescoço que eu não sinto mais. Ela sorriu mais uma vez e disse, usando meu nome verdadeiro:

- Sabe Felipe: sempre existe um peixe maior... –


Me abraçou apertado.

felipe teles