Curiosa Prosa



Daniel sabia que não era uma boa ideia sair do quarto. Ainda assim ele quis arriscar. Não que, de fato, fosse uma boa ou má ideia, não se tratava absolutamente disso - era uma questão de curiosidade.
Interessante notar a relação que existirá entre sair do quarto e sair do armário, a mesma provavelmente se dará por um contexto histórico social do circulo de amigos cobras que o autor tem. Cascavéis.
Pois bem, continuemos com nossa prosa;

Daniel não sabia se deveria ou não sair do quarto; ainda assim havia curiosidade. Em que maldito universo havia se pensado que a curiosidade seria algo positivo para a humanidade? Se sair do quarto fosse representar a morte de Daniel, de nada teria servido a curiosidade a não ser para o fim do autor. Pensemos; no ponto em que tentamos entender o que é o fim, será que isso (sim, o fim!) é algo negativo? Partindo da premissa desse conversa, o fim, de fato (sim, eu estou enrolando vocês) parece negativo, mas será que o será ao fim? Aliás, qual foi a premissa mesmo? Eis aqui apenas confusão, ou uma mera forma de lhes aplicar alguma ludibriante ilusão; Me respondam uma coisa; porque diabos vocês estão lendo o que está riscado? Que curiosidade arrebatadora é essa em dar mais atenção ao que foi negado ao texto do que ao corpo essencial do mesmo? Qual o real valor daquilo que foi descartado, bruscamente riscado e rascunhado? O que há de bom em algo que foi amassado, picado e deixado de lado para o passado? Eu exijo respostas.

Paremos com a digressão, esse aspecto não faz parte de nossa psicologia - ao menos não daquela que nos foi diagnosticada. O que importa é que Daniel já havia entendido que sair do quarto era uma péssima ideia.

Ele saiu. De fato, uma péssima ideia para a sua curiosidade, caro leitor - sem ele no quarto não há mais ninguém para lhe escrever.

Desentendimentos Líricos


- Li outro dia num poema: "Vai, Carlos! ser gauche na vida".
Na verdade li errado, me enxaguei e me joguei em tela.
me esparramei, espalhei, colori.
Não era guache que esse tal anjo me mandou ser?
se emoldurado for, em que parede me alinharei?
Se torto já o era, imagine agora...

Maldito anjo!, se eu perdido já estava, sem saber oque fazer,
agora então, mais ainda, oque farei?
Não entendo de pinturas, nem sei se aquarelarei,
se arte venho a ser ou rascunho, ou esboço, ficarei a mercê.

Ahhh Carlos, eu devia era ser poeta mesmo, como você,
ou me atentar pelo menos um pouco mais ao português.
Mais fácil virar verso no papel escrito, que ser prosa nessa vida.

Virar página, cruzar perna, ver o mundo,
ficar recolhendo as pedras do caminho.
Nem mesmo se eu me chamasse Raimundo.
Essa vida de José, é demais pra qualquer rima.

Deve Haver Mais num Olhar


Deve haver uma primeira vez pra tudo.

Como aquela primeira vez que eu fui pego pelos seus olhos e dentro deles vi chamas. Você se lembra dessa primeira vez? Nunca havíamos nos visto e essa chama ardeu por tempo suficiente pra permanecer em brasas, tempo suficiente pra que apenas nós percebêssemos. Mas ela ardeu.

Essa brasa, no entanto, foi mantida lá no canto escuro brilhando quase apagada, quase um fósforo recém soprado. Lá longe, onde por mais que olhássemos dentro do outro não haveria nenhum brilho pra dizer que brincávamos com fogo. Nem calor.

era o inverno da carne.

A Praga do turista


Sempre achei curiosa a preocupação dos meus professores em saber se estarei viajando e não na Irlanda durante o fim de ano. Se já é difícil passar pelo rigoroso inverno daqui pra quem é irlandês, imagine um jovem vindo de um país tropical onde o sol, até nos dias mais feios, está sempre presente? Juntei então o útil ao agradável. A vontade de viajar durante as férias de Natal e a recomendação de manter a cabeça ocupada fora de casa.

sobre o Amor



Olhei o relógio.

Mais por hábito. Não queria saber a hora. O tempo de espera não era importante. A ansiedade me fazia companhia, assim como o sorriso que se contraía pra sair. Faltava você, mas só por enquanto. Até que... Pronto. Não falta mais e o sorriso abriu e a ansiedade se foi. Ver você vindo na minha direção com o mesmo sorriso, a alguns segundos de um beijo de saudade, que antes eram minutos, que antes eram horas, que não tiveram tempo de ser dias - a vi ontem afinal.

Selfies, souvenires e tampinhas de cerveja

Numa das estantes de casa tenho uma pequena coleção de tampinhas de cerveja. Para fazer parte dela a tampinha não precisa ser de alguma cerveja importada, diferente ou artesanal. A princípio ela só precisa vir de uma experiência colecionável, seja um grande festival de rock, uma viagem pelo Brasil, pela América Latina ou de uma festa na minha própria cidade. É como se a cada tampinha eu reservasse memórias e sensações, que vão vir à tona a cada vez que as encarar na estante. Esse é o mesmo argumento costuma(va) legitimar a fotografia.

Uma cobra na maleta


Contextualizando: essa é a segunda parte do texto "À esquerda do meu sofá. Dito isto, posso seguir... No segundo turno dessas eleições (do lado esquerdo do pensamento político) houve várias formas de expressar seus sentimentos na urna. Houve o voto de quem era convicto no PT: o voto da esperança; houve o voto de quem era desconfiado do PT mas aplicou o voto de veto ao PSDB: o voto de segurança; mas também houve quem repudiava ferrenhamente o PT, não encontrava argumentos para sua escolha e, ainda assim, aplicou veto: ou o voto de "quem tem cu, tem medo".

À esquerda do meu sofá


Sobrevivemos. Depois das eleições mais violentas que já enfrentamos, acho seguro dizer que, sim, sobrevivemos. Mas digo em tom de preocupação. Afinal essa foi (apenas) a sétima edição de nossas eleições desde a abertura militar. Nossa sétima demonstração de democracia. E nesse quesito, como visto, somos uma criança recém saída das fraldas. Seja pela pirraça, pelo mimo ou teimosia, nós fizemos uma zona em casa. Mas crescer é uma constante de acertos e erros, que em conjunto somam aprendizados e solidificam nosso caráter. Sendo bem sincero, acredito que esse processo eleitoral foi uma baita experiência para nós - essa criança. E por isso este e meu próximo texto irão tratar sobre isso. De um ponto de vista bem pessoal vou tentar conversar sobre o que aprendi durante esses dias, esperando que daqui a dois anos eu discorde ou questione tudo que escrevi aqui. Pelo bem de meu próprio amadurecimento.

Onde Vivem os Monstros












um quarto escuro e cheio, minhas mãos refletem o brilho da tela do computador.
o barulho da chuva e meu coração bate pesado e vazio.
eu sinto o peso que ele carrega, sinto meu corpo se inclinar para a esquerda mas sei: É um peso morto.
um peso há muito perdido que não tem nome nem rosto.
esse peso que um dia chamei de amores, que um dia era inflado e quente e me fazia voar.
um peso que antes era leve, muito mais que o ar .
antes, enquanto o via se esvaziar, chorava sentado por não saber o que fazer.
existe quem possa tapar um buraco no coração?
e de repente de um balão inflado restou a dor.

Escrevo


Apago. reescrevo. apago como antes.
Escrevo coisa nova. essa fica.
O que vem depois? apago.
O que veio antes ainda fica, mas o meio ainda não tá legal.
Jogo o corpo pra trás, a cadeira também.
Levanto. vou pegar um café. volto.
Ainda tá lá oque ficou.
Estalo os dedos.
Tá tudo enferrujado. Os dedos, o raciocínio, o teclado.
Tá tudo empoeirado. A voz, o quarto, e o que mais tiver por perto.
Paramos no tempo por falta de tempo.
Paramos no tempo por falta de espaço.
Por causa da distância, o mais difícil era conseguir tempo e lugar para parar.
Muitas ideias.
Muitas.
Só ideias.
Escrevo. escrevo. não apago.
Ideias demais confundem demais.
levanto.
alongo.
sento.
Escrevo. Ponto.
Final.
Talvez.
não termino.
virgula,
reticências...

Agenda do autoengano













Ah, a liberdade.
Um dia chego lá.
Pego umas roupas e me jogo no mundo.
Ah, um dia...
Só com uma mochila,
caio na estrada.
Um dia tomo coragem.
Hoje não dá. Ainda não dá.
Mas ah, um fim de tarde laranja, né?
E as estrelas no interior de Minas?
O clima em Montevidéu...
Ah, um dia... um dia eu vou, ein!
Pego umas roupas e me jogo no mundo.
Só com uma estrada,
caio na mochila.
Não me falta coragem!!!
Mas esse ano ainda não dá.
ahhhrgg, essa liberdade...
<silêncio>
Foda. Um dia eu vou.

Grandes Peixes Vorazes


Música em mim: St. Anger (Metallica)

Aquele lugar. Aquele lugar era escuro. As luzes que piscavam tiravam de mim toda noção de tempo. Tudo ali parecia esquisito. Desde a temperatura muito fresca se comparada ao calor das ruas ao cheiro de chiclete no ar. E as pessoas. Essas pessoas maquiadas atraindo atenção para si. Cada uma e todas as meninas tinham um jeito estranho. Elas projetavam sensualidade pra cima de tudo de uma forma tão vulgar. Os caras por sua vez ficavam embasbacados com qualquer desses movimentos femininos e faziam para elas. Faziam tudo o que elas pediam. Era um círculo ridículo. Elas se insinuavam e os caras davam. Elas se insinuavam mais, os caras davam mais.

A Tartaruga e a Tampinha


     
            A Tampinha
Dividia minha primeira casa com uma garrafa quando minha peregrinação começou. Morávamos em uma geladeira de um bar qualquer, mas não ficamos lá por muito tempo. O dono do bar resolveu nos negociar por algumas moedas. No mesmo dia fomos separadas, eu e a garrafa. Ela ficou com aquele que nos tinha comprado. Já eu, fui jogada no chão. Alguns chutes daqui, outros dali e veio minha primeira chuva, e que chuva.  Lembro bem do torrencial formado no canto da calçada, forte o suficiente para me arrastar de um lado para outro, e sempre para corredeiras mais fortes.

repetição em sol menor, síncope em compasso ternário













hoje eu estou meio imprudente sobre como contar uma história: quero experimentar. principalmente por ser minha história, eu gostaria de ter uma narrativa clássica, mas todo mundo faz essa narrativa clássica. esse início, esse meio e esse fim sempre aparecem nos mesmos lugares. todo mundo sabe os pontos em que as histórias fazem suas viradas. é mais ou menos ver o sol nascer por anos seguidos e não ter dúvidas que no outro dia ele nasce de novo. mas hoje vou tentar fazer diferente! hoje meu sol vai nascer meia-noite e vai se pôr dois minutos depois. hoje eu vou acordar no nascer do sol e vou ficar acordado até ele sumir no ocidente e vou ver o pôr do sol da minha laje, do lado da minha cachorra. hoje vou…

"Não seria muito melhor se todos usassem saia nesse calor?"













6h o despertador tocou. mais cinco minutos... mais cinco minutos. Dez minutos depois o toque da soneca repetiu o alarde. Está mesmo na hora de acordar. Levanta, vai até a janela e vê o sol radiante! Tão bonito... Tão... Quente! Banho rápido, gelado, seca, volta pro quarto, abre o armário e ela está ali. A saia é mesmo a melhor a opção . Impossível usar a calça quando as 7h da manhã o termômetro de rua já marca mais que 30°, ultimamente a sensação térmica beira os 50° ao meio dia. Enfim, vai com ela. Toma o café e sai.

Ela, Janela [Parte II]

Como fui boicotado de cumprir minha promessa semanal de publicar o Ela, Janela, posto logo duas páginas da minha HQ e mais um textinho sobre a Copa aí embaixo pra ostentar conteúdo criativo nesse blog.

Não vai ter copa?


Recentemente os movimentos sociais anunciaram o grito de "Não vai ter Copa!" e se colocaram contra qualquer discurso que venha defender o mega-evento. Tal postura, comumente associada à extrema esquerda, falha em transmitir os motivos justificam esse movimento: Realmente vamos cancelar a copa? Somos contra o evento copa? Somos contra as consequências que a copa traz? Antes da copa tava tudo bem e agora estragou?
Desta forma fica evidenciada a falta de diálogo claro com a sociedade e também gera a falta de uma crítica que de fato responda os argumentos de quem é contra a copa. Ultimamente os textos que eu tenho lido a favor da copa nunca respondem de fato as questões levantadas por aqueles que são contra.

Vou especificar:

Repórter-editô


Uberaba, MG. Fevereiro de 2014. 

Anteontem fui a uma manifestação aqui na cidade, interior de Minas Gerais. Pelo facebook, setecentas pessoas confirmaram presença no protesto contra o aumento da tarifa do ônibus, que subiria para R$3,45 num aumento de 60 centavos. Peguei carona com uma equipe da TV Integração, rede local e afiliada da Globo, acompanhado pelo cinegrafista, um repórter da TV e outro do G1, que faria a cobertura para a plataforma online.

Chegando lá, o usual. Nem cem pessoas compareceram. O evento foi minguado, parou o trânsito por alguns minutos e o movimento mais violento do ato foi um tapa na lateral de um ônibus. Porém, lá estava eu, com câmera em punho, fotografando uma pequena manifestação, tentando contar uma história. Ao fim do dia, ofereceria as fotos para o repórter do G1, que possivelmente as usaria na matéria. Aqui entra, então, a deixa e o propósito deste post: vamos pensar comunicação.

O Processo Criativo; Cap. II


Como prometido na minha publicação anterior, continuarei com a série sobre o processo criativo. Dessa vez não me aprofundarei com textos filosóficos ou científicos (se é que eu posso chamar aquele texto disso). O que farei será publicar a continuação do processo criativo da música que estou compondo com Yohane Margarida.

Nesse meu hiato de 18 dias tivemos tempo suficiente para terminar a música, gravar alguns bastidores e fazer uma pequena entrevista para falar um pouco de como se deu o processo de composição. Não vou demorar com palavras, vamos logo as gravações, certo? Vamos lá, em subcapítulos:

O Estresse

Mais Uma História de Amor


Ontem ela acordou e sentiu a mesma pontada de dor no peito dos dias anteriores. Enquanto achava que estava morrendo, passava geleia na torrada que comia, seguida por um gole de café. Durante todo o dia a dor foi aumentando e se fazendo cada vez mais presente. Ironicamente ela achava engraçado o fato de a dor aumentar mas seus seios permanecerem do mesmo tamanho. Se ao menos eles inflassem juntos, seria um bom motivo pra continuar sofrendo o amor perdido.

(Um texto cheio de parênteses)





Querido diário...

Numa noite de rara lucidez alcóolica, na casa do Daniel, (acho que fica em D. de Caxias); ele, eu e alguns outros amigos, tivemos a idéia de elaborar o CASA. Cada um devia postar uma obra autoral, algo que achasse interessante, ou sei lá, qualquer coisa: texto, música, HQ, fotografia, gifs, etc. (alguém já explicou anteriormente o surgimento do blog, mas eu quis falar novamente sobre isso). Bem, sou muito preguiçoso para elaborar textos, faço-o apenas sob pressão (trabalhos da faculdade ou redações para vestibulares). Deixando claro isto, minha postagem será uma música (acompanhada deste breve texto).

"Procrastinação" ou "Prazo Encerrado" ou "5...4...3...2...1..."


- Okay! Agora é só começar...
...
...
Tá, teria sido mais fácil se eu tivesse começado há duas semanas atrás e tal, mas eu tinha umas outras coisas pra fazer e isso é moleza, nada demais, em 1h eu escrevo. Só não contava com a merda dessa falta de criatividade que tá me atormentando... acho que vou colocar uma música, esse silêncio é que tá me matando. É isso! Não não é, esse barulho todo não tá me ajudando a pensar. Se bem que ainda tem metade do dia pra isso, acho que vou ver um filme...

Ela, Janela


Frente à quantidade infinita de informação e possibilidades que se desdobram perante nossa geração, nosso grande desafio é a ação. Ao mesmo tempo que os inúmeros universos de atividades e criações nos permitem sonhar e acreditar que somos capazes de tudo, isso também nos serve de algema numa situação onde um horizonte tão extenso acaba por nos deixar parado, inerte apenas observando-o e se perdendo em futilidades.

O curioso caso do drogado do segundo andar



Investigações primárias

As suspeitas começaram logo na primeira semana de Sandro, o novo inquilino do conjugado 202. Logo pela manhã, Roberto pensou ter escutado uns gemidos estranhos no apartamento ao lado. Investigador, acordou um dia mais cedo, arrastou o sofá da parede de centro e concentrou-se nos ruídos do vizinho. Na lata! Ouviu algo como um "aaaaaaaarhhhg, que isso!". Intrigado, por mais dois ou três dias Roberto pôs-se a repetir o ritual. Até arrumou um estetoscópio com o cunhado, o clínico geral não oficial da família. No ofício, parecia um perito, chegava a passar legitimidade à pataquada, reconhecida pelo mesmo como "um serviço à todos os condôminos". O resultado, porém, não pudera ser outro. Sessões de gemidos, dia após dia: "uuuurrhh", "hmmmmmmmm" e "shhhhhhhhhh, eiiiita caralho!" foram minunciosamente percebidas por Roberto, que, conservador que só, entrou numa pilha de nervos.

O Processo, O Coletivo e o Criativo.













Pois bem, amigos. Faço minha estreia em nossa Casa de Subúrbio não com uma criação, mas com um texto sobre a criação. Observo que o espaço foi designado para darmos início a uma produção de material em conjunto e achei pertinente filosofar um pouco antes de dar demonstrações de minha própria criatividade. Pretendo fazer certa análise de um problema que temos encontrado em nosso caminho, que é o de criar em conjunto. Para que o texto se desenvolva melhor, usarei como premissa os problemas do que vem antes de uma criação e as possibilidades de um processo criativo que parte do individual e avança para o coletivo.