Diálogos de submundo













As duas horas da manhã em Londres nada está aberto. Quando você acaba de perder o último ônibus pra Glasgow e percebe que está sem teto até o dia seguinte, a sensação não é animadora. Resta procurar um abrigo. Naquela situação com malas, fome e completamente exausto de uma série de outras viagens, qualquer um serve. Parece que pelo menos há uma saleta da rodoviária aberta. De dia, é utilizada para comprar tickets em máquinas eletrônicas, de noite, acolhe perdidos como eu. Entre mochileiros, imigrantes e trabalhadores pobres, havia também pais com carrinho de bebê atravessando a noite, no exercício ininterrupto de tirá-lo daquele ambiente. Um homem de uns trinta e poucos distrai seus dois filhos com os presentes de Natal ainda nos braços até que peguem no sono. Três negros estilosos discutem em algum idioma os tickets comprados aparentemente errados. Escolhido o melhor canto (nem tão fedido e a salvo do vento frio que entra pela grade) tiro o resto do sanduíche que havia sobrado da janta no aeroporto e assisto o diálogo de um garoto de cabelo penteado e boas roupas com um senhor coberto por uma grossa manta vermelha com cara de quem já esteve ali outras vezes: