As duas horas da manhã em Londres nada está aberto. Quando você acaba de perder o último ônibus pra Glasgow e percebe que está sem teto até o dia seguinte, a sensação não é animadora. Resta procurar um abrigo. Naquela situação com malas, fome e completamente exausto de uma série de outras viagens, qualquer um serve. Parece que pelo menos há uma saleta da rodoviária aberta. De dia, é utilizada para comprar tickets em máquinas eletrônicas, de noite, acolhe perdidos como eu. Entre mochileiros, imigrantes e trabalhadores pobres, havia também pais com carrinho de bebê atravessando a noite, no exercício ininterrupto de tirá-lo daquele ambiente. Um homem de uns trinta e poucos distrai seus dois filhos com os presentes de Natal ainda nos braços até que peguem no sono. Três negros estilosos discutem em algum idioma os tickets comprados aparentemente errados. Escolhido o melhor canto (nem tão fedido e a salvo do vento frio que entra pela grade) tiro o resto do sanduíche que havia sobrado da janta no aeroporto e assisto o diálogo de um garoto de cabelo penteado e boas roupas com um senhor coberto por uma grossa manta vermelha com cara de quem já esteve ali outras vezes:
- Aí, sabe se dá pra usar isso, aqui?
- Quer tentar a sorte? Se o guarda da estação te pegar você tá ferrado.
- Acho que dá pra ficar na encolha, vou ficar perto da parede e qualquer coisa, escondo.
Enquanto o velho ria da necessidade alheia, o rapaz foi lá e acendeu.
- Essa parada funciona mesmo? - um homem mais velho se aproxima curioso - Tô atrás de um desde que cheguei aqui mas não achei
- Funciona - os olhos mal saiam do que havia em suas mãos e também não queria instigar mais o desconhecido entrometido
- Posso sentar aqui e usar um pouco também? É rapidinho mesmo, só pra dar uma ligada.
- Calma aí, cara. Eu tô usando agora, quando acabar pode ser sua vez.
- Claro, claro, mas já vou ficando por aqui pra ninguém passar na minha frente.
Nesse momento dois guardas surgem na saleta, parecendo já saber por quem procurar. Perguntam se dois dos que estavam ali tinham bilhetes e qual ônibus pegariam. O estereótipo dos escolhidos era claro e objetivo. Com atenção de cinema, o recinto inteiro acompanha a cena, que de alguma forma consegue terminar favorável pros perseguidos, deixando um sorriso amarelo no rosto dos guardas. Dado um tempo, o vício podia voltar.
- E aí?
- Seguinte, que horas é o seu ônibus?
- 6h
- Beleza, o meu é as 3h. Eu só preciso de mais 40 minutos pra ficar legal, aí eu deixo a parada contigo e você usa até não aguentar mais, pode ser?
- Tá fechado, então. Mas tô ali do outro lado de olho em tu!
Percebo que a rotatividade das pessoas ali é maior do que eu esperava, no fim eram poucos mesmo que estavam virando a noite como eu. Alguns sortudos inclusive conseguem pegar no sono. Sono que aliás me maltrata mas não é o momento nem o lugar de descansar.
Dez pras três e finalmente o rapaz se levanta pra pegar seu ônibus, o homem do outro lado se levanta quase instantaneamente de tanta ansiedade. Era sua vez. Ele senta no local escondido tão bem guardado e vê sua alegria se materializar em suas mãos e desmanchar em questão de segundos.
- Puta que pariu!
- Não rolou? - o senhor da manta vermelha ainda ria de toda a situação
- A tomada é de três pinos, meu laptop não encaixa!

Um comentário:
Muito boa sua escrita! Já quero ver que mais tem em seu blog.
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