--É um assalto-- exclamou o assaltante.
-Porra, um assalto - pensei como se não fosse algo importante. - Tarde da noite, voltando pra casa bêbado. Cansado! Rua escura, me lembra até cenário de cinema e um belo clichê. Mas tudo bem, né? Normal. Levanto as mãos? Reajo?
Levantei as mãos.
O canalha ainda ta usando uma meia-calça na cabeça e botando as mãos nos meus bolsos, Realmente muito clichê.
-Ae irmão, já se foi todo o meu dinheiro, to lisinho...
-Cala a boca, porra! - Ele me interrompe.
Enquanto vasculha em meus bolsos, eu, o Herói, o canalha acha uma caneta. “A” caneta. Essa porra já me deu tantos problemas que vai ser um prazer quase que masoquista perdê-la...
Porra, funk. Porquê sempre tem algum lugar tocando funk? Me sinto num filme: Um enlatado cheio de falas hollywoodiano. Ao ver que eu não tenho nada de valor e uns documentos, o canalha me dá um soco na cara. Vê se pode!
- Hijo de Puta! (É neguinho, te surpreendo com meu espanhol!)
Ah, se você não tivesse portando essa pistola, que por acaso me parece aquelas d’água. Mas dadas as circunstâncias, deixa rolar! O bandido senta na calçada e chora. Vai entender... Será que quer me impressionar? Eu que to com o nariz sangrando... Agora ele tira a “máscara”.
Pois é... O mocinho nunca consegue ver alguém passando por problemas além dele próprio, é o clássico: Blockbuster. Minha vida é um filme - vou pensando enquanto me aproximo dele - E, bem... olhando de perto, ele é uma criança. Com uma pistola d’água.
Fils de pute. (também falo francês.) mas...
Sento ao lado dele, que chora com mais empenho, minha boca dói e o funk não para. Ele fica me olhando... Dá até pra dizer que é um menino de rua, pela cara de pidão. Me sinto compelido a iniciar o primeiro diálogo da trama:
- Bem, desculpe por não ter dinheiro mas hoje em dia ta difícil. Tá vendo essa caneta? Minha mulher me largou por causa dela. - Olhando mais de perto, o menino lê: Nosso amor é infinito.
- Eu achei na rua ontem e minha mulher pensou que alguma amante me deu. Nem deu pra argumentar com aquela vagabunda. Sabe o que é clichê?
O menino sacode a cabeça dizendo que não e resolve falar:
- Porra doutor, eu tô fudido, tô devendo o olho da cara na boca e de amanhã não passa. E eu não tenho nenhum centavo. Tô morto e fudido.
As aways, o coração do mocinho é bom e justo. Lá no fundo, numa frenesi freudiana, ele vai lembrando tudo de ruim que viveu com a mulher, e no one last breath de bondade e altruísmo, sacrifica-a como cordeiro espiatório em troca da vida do seu mais novo protegido - protected.
- Sabe cara, aquela vaca que te falei agora pouco tem umas joias legais em casa! E o melhor é que tenho as chaves aqui comigo. - Meto a mão no bolso e num molho escolho aquela que sela nossos destinos e recria esperança no coração do jovem rapaz.
Nice plot point.
- Mi amigo, ela mora na rua Pacheco Jordão, ali perto. 183. Joias ficam no alto do armário do quarto. - Enquanto penso na casa revirada (uma vingancinha pessoal), falo que ele tem que fazer uma baguncinha qualquer pra não parecer mandado. Ele me dá um sorriso maroto e responde que sabe o que fazer, levanta e me dá um abraço. Cliiii-chê!
-Então...
-O que?
-Nada... mas o que você vai fazer com uma pistolinha de brinquedo?
-É de verdade! - E em seguida mostra as balas pra mim. Ainda bem que não reagi...
Já na minha cama, me recordo de todos os acontecimentos e sinto um calor em meu coração. Acho que se chama orgulho, afinal, pro jovem marginalizado eu fui um herói. - Faça o bem, não importa a quem! Esse será meu lema de agora em diante.
Dormi.
Manhã seguinte. Ressacado, quarto escuro/dia.
O telefone toca e é a mãe dela.
Desesperada me conta que pela manhã visitou a filha e ela tava baleada ao lado de um cara na cama. Os dois pelados. A casa intacta a não ser pelas joias que sumiram. Pergunta se brigamos. Digo que sim e que ela me largou. (confesso que estou meio desnorteado com a notícia). Ela desliga o telefone na minha cara.
Meia hora depois, durante o café a campainha toca:
Dois policiais - mandato preventivo - suspeito de assassinato/Fudeu!
Logo eu, o herói... Enfim, o que vale é meu coração permanecer puro! Umas vidas por outra, nada mais justo. Mas vai entender...
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3 comentários:
o comentário que estava devendo.
tarantinou nos pequenos plot points até o início do fim, e nelson-rodrigou na tragédia carioca do final. e ficou foda.
Gênio da comédia trágica! HAHAHA! Concordo em cada palavra redigida pelo amigo Douglas e adiciono o seguinte: você tem o conhecimento das ruas, meu amigo, e soube expressar isso hahahaha
Tu falou que já começou a preparar um novo material pra postar, e na boa, já quero ver!
Que trágico! hahaha coitada da moça
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