Ontem ela acordou e sentiu a mesma pontada de dor no peito dos dias anteriores. Enquanto achava que estava morrendo, passava geleia na torrada que comia, seguida por um gole de café. Durante todo o dia a dor foi aumentando e se fazendo cada vez mais presente. Ironicamente ela achava engraçado o fato de a dor aumentar mas seus seios permanecerem do mesmo tamanho. Se ao menos eles inflassem juntos, seria um bom motivo pra continuar sofrendo o amor perdido.
Anteontem, ela também sentiu o peito doer e sentiu como se nada fizesse sentido. E no dia anterior coisas deixaram de ser feitas pois a dor era demais. E os dias e semanas antes disso também não vieram com novidades: a dor estava lá e o mundo continuava a girar.
Nessa madrugada, pouco antes de dormir, ela percebeu que a dor é amiga, que é aquela pontadinha que apesar de inconveniente também envolve. Que abraça e acaricia e faz lembrar que um dia existiu aquele amor. E ela se sentiu feliz por ter amado e dormiu e acordou depois de um sonho tranquilo. E se sentiu leve e disposta e estava feliz e o peito não pesava...
Hoje ela é feliz, a torrada vêm com manteiga e um café estranhamente mais doce acompanha o acordar. O copo que todos os dias vai à pia vazio, hoje tinha café até a metade e duas torradas mataram sua fome. Aquele peito leve a deixava mais animada e a alegria enche o estômago.
E com uma roupa colorida, maquiagem e um perfume suave, o dia se foi tão sorrateiro como veio e a noite pediu uma cerveja e a alegria imprimia em todos os lugares que ela passava e as pessoas percebiam e ela ficava envergonhada de admitir, mas chegou em casa sentindo como se tivesse faltando algo.
E mais um dia se passou e o seguinte e depois a manhã e a tarde do quarto dia feliz. E a felicidade virou conhecida, e a conhecida virou amiga e a amiga se tornou tediosa e ela não suportava o tédio e muito menos pessoas muito felizes.
Nesse dia, o espelho foi usado por mais tempo que o normal e enquanto cada pedaço do corpo ia sendo analisado, ela foi percebendo que tinha algo faltando mas ainda sem entender o que, enquanto passava a mão pelo corpo, apertou os seios de leve. Aquele peso foi um alívio e ao tirar a mão, a leveza era incômoda. Mais um aperto seguido de um alívio, a mão direita a sufocava de leve e a esquerda dava pequenos socos no tórax e ela entendeu o que faltava. Deu uma risada de descoberta e uma lágrima de saudade abriu caminho pela maquiagem.
Na sala, o telefone a olhava; sentada no chão de pernas cruzadas, usando um rosto que estampava alegria e tristeza enquanto discava para um velho conhecido. A pessoa atende seguindo-se assim um breve momento de silêncio incômodo, seguido de uma conversa superficial que foi o prelúdio de uma conversa mais intensa que deu margens a brigas, acusações e ciúmes que inflavam o peito dela com pedras e apertavam a garganta com arame farpado. E lágrimas de sal escorreram logo antes de o telefone ser jogado ao gancho.
Ontem, ela acordou e sentiu a pontada de dor no peito. E ficou feliz com isso.
Hoje também.
Escrito por Felipe Teles
Escrito por Felipe Teles

Um comentário:
Mais um que me inspirou, Teles. Cheguei a mostrar pra Yohane (mas ela tava grogue de sono). Não sei se fiz a edição dos parágrafos da forma como cê gostaria haha.
Acho que pro artista esse é o tipo de sensação comum. Não que eu possa me considerar artista, mas enquanto tento fazer arte eu dou credibilidade a qualquer tipo de sentimento, inclusive, a dor. Aliás, é incrível como, em determinados momentos, deixar esses flagelos abraçarem a gente parece ser muito mais reconfortante do que buscar soluções ou sentimentos diferentes haha. Tem gente que fala que é deixar-se acomodar com um sentimento; eu acho que a questão é um pouco mais profunda.
Enfim, meu amigo. Cê escreve bem a beça, merece um beijo!
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