Selfies, souvenires e tampinhas de cerveja

Numa das estantes de casa tenho uma pequena coleção de tampinhas de cerveja. Para fazer parte dela a tampinha não precisa ser de alguma cerveja importada, diferente ou artesanal. A princípio ela só precisa vir de uma experiência colecionável, seja um grande festival de rock, uma viagem pelo Brasil, pela América Latina ou de uma festa na minha própria cidade. É como se a cada tampinha eu reservasse memórias e sensações, que vão vir à tona a cada vez que as encarar na estante. Esse é o mesmo argumento costuma(va) legitimar a fotografia.


Dos celulares às selfies, o evento-foto viralizou. Seria como se a cada long-neck aberta eu levasse a tampinha pra casa. O que há em comum nessa comparação é que fotografias e tampinhas são formas de apropriação da memória. Só que diferentemente de selfies comuns, esse ensaio de fotos que fiz com minha namorada durante uma viagem pelo Uruguai e Argentina serviram para valorizar a foto-suvenir, e não para banalizá-la. Ou melhor, elas servem para valorizar o processo da foto-suvenir, afinal, toda selfie pode ter a pretensão de ser mais do que um mero registro.

Em viagens a dependência da câmera tende a aumentar. O equipamento registra e torna crível o que se vivencia. Durante a viagem estivemos com pessoas que não tiravam a câmera do pescoço - algo que evitamos ao máximo. Mas ainda que exista muita vaidade em nossa seção de fotos, não há o raso "pare, fotografe e siga", porque quando o senso de direção passa a ser dependente das intervenções da câmera, a foto se torna uma forma de recusa e negligência às experiências reais da viagem. O brio predatório de um turista, só o olhar pode regular.


De certa forma essas selfies carregam uma pequena crônica. O lado voyeurístico da história, de quem está se movendo e observando lugares diferentes de sua rotina, e não apenas clicando no automático. Parar, respirar e observar a paisagem é fundamental - no turismo e na fotografia. E em tempos onde todos esses costumes se tornam formas legítimas de consumo, nos resta tentar transformá-los em experiências revigorantes. Onde até mesmo uma selfie (óbvia, narcisista e desinteressante) consiga ser diferente - e te inspire a sair de casa mais uma vez.

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