A Praga do turista


Sempre achei curiosa a preocupação dos meus professores em saber se estarei viajando e não na Irlanda durante o fim de ano. Se já é difícil passar pelo rigoroso inverno daqui pra quem é irlandês, imagine um jovem vindo de um país tropical onde o sol, até nos dias mais feios, está sempre presente? Juntei então o útil ao agradável. A vontade de viajar durante as férias de Natal e a recomendação de manter a cabeça ocupada fora de casa.

Mas definir roteiros de viagem é sempre mais complicado que parece. É preciso definir prioridades e companhias certas para conseguir aproveitar bem o programa mas alem de tudo é preciso gerenciar com cautela os dois principais e mais valiosos fatores: tempo e dinheiro. Quando ainda no Brasil, por atravessar um período de quase um ano de edital pré intercâmbio com todo o stress possível, aproveitei pra pesquisar muito sobre viagens ao redor do mundo e tudo de importante que poderia precisar saber quando fosse chegado o momento. E algo que sempre foi claro na minha mente era o fato de que não queria fazer apenas turismo. Não me bastava simplesmente chegar numa cidade, tirar meia dúzia de fotos (ou milhões delas) pra colocar num álbum virtual e voltar pra casa. Era preciso vivenciar essa cidade, conhecer sua cultura, seus habitantes, se perder pelas suas ruas e sua rotina, sentir na pele o que era viver aquele lugar. Esse sempre foi meu sonho antes de vir pra cá. Porém essa visão passou a ser conjugada no passado a partir do momento em que ao programar minha viagem de fim de ano decidi passar menos de 24 horas em Praga.

Um pecado, sem a menor sombra de dúvidas, porém necessário, infelizmente.

A questão que se levanta então é:

Então, qual o período mínimo necessário para se vivenciar uma cidade? E o que é vivenciar uma cidade?

Uns quatro dias, pelo menos. Quatro dias, para uma cidade que não é uma megalópole como o Rio de Janeiro ou Nova York, dá tempo pra conhecer todos os pontos turísticos com calma, comer comidas típicas e passar um bom tempo dentro de mercados populares atrás de quinquilharias pra trazer como testemunha.
Mas esse é justamente o programa que eu não queria fazer. É preciso mais tempo! Duas semanas, então! Com duas semanas você vai ser forçado a ir além de qualquer roteiro turístico e se imergir de fato nas partes mais tradicionais da cidade. Mas ainda é uma fração muito pequena da rotina que acontece ali. Em duas semanas você não conhece tantas pessoas e cria laços afetivos. Um mês! Mas ainda faltam as quatro estações do ano e como isso modifica a cidade. Um ano?

Me peguei então, analisando o que eu conheço de Galway, a cidade irlandesa que me abriga nesses últimos três meses. Todo dia que saio de casa e ando pelas ruas daqui tenho novas experiências e descobertas. A cultura irlandesa é algo que nunca se esgota e sempre tem algo novo a me ensinar. Inclusive o centro da cidade, por onde já passei por tantas vezes, ainda tem novas ruelas a me apresentar.

Viajo mais longe então, o Rio de Janeiro, que há 22 anos anos tem sido minha casa. Quanto eu posso dizer que conheço do Rio? Dentre todos os seus aspectos físicos, culturais e sociais. Meu Deus, eu nunca fui à uma quadra de escola de samba! Como posso dizer que conheço o Rio sem isso?

A questão é que vivenciar uma cidade é algo completamente subjetivo. Depende totalmente dos seus valores e sua forma de enxergar o espaço à sua volta. Eu como estudante de Arquitetura e Urbanismo me cobro ainda mais por isso por entender a complexidade que é o ambiente urbano. A gama de perspectivas para se analisar uma cidade é infinita e sempre vai deixar algum aspecto de fora.

Pois bem, estamos todos condenados ao fracasso.

Contudo, me permito contornar essa conclusão tão pessimista. A obsessão de conhecer profundamente um local é um fardo que não deve ser carregado pelo simples fato de não sê-lo possível. E uma vez que se pretende ainda assim visitar o maior número de realidades possível, é preciso entender que algumas ficarão aquém do que gostaríamos. A solução, pra mim, se encontra em definir o que é primordial.

A diferença está no olhar.

O olhar do viajante que não estando habituado com o cotidiano, enxerga aquela realidade de forma única. Que imprime sobre aquela visão, também, seus costumes e valores. A diferença está no peito aberto para absorver tudo que está ali ao seu redor, mesmo estando em excesso. A diferença está na mistura que ocorre quando tudo isso se aglomera dentro de si.

Afinal, por mais que eu não possa dizer que conheço tudo das cidades por onde eu passei, a carga de aprendizado que eu trouxe de cada canto é enorme e está guardado dentro de mim. Podendo, um dia, retornar à estes lugares, somarei ainda mais ao que já tenho e assim por diante. Só não é possível acreditar que uma compreensão aprofundada sobre um local possa vir antes de uma mais superficial, nem que um dia, tudo que há pra se absorver de uma cultura estará esgotado.

Após tirar esse peso terrível das costas, volto pro meu roteiro pelo leste europeu. Infelizmente, dessa vez terei apenas algumas horas para conhecer Praga, mas não tenho a menor dúvida de que vivenciarei esse momento da forma mais proveitosa possível e aguardarei ansiosamente pelo dia que poderei voltar com mais calma e dar o tempo que o lugar merece.

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