Deve Haver Mais num Olhar


Deve haver uma primeira vez pra tudo.

Como aquela primeira vez que eu fui pego pelos seus olhos e dentro deles vi chamas. Você se lembra dessa primeira vez? Nunca havíamos nos visto e essa chama ardeu por tempo suficiente pra permanecer em brasas, tempo suficiente pra que apenas nós percebêssemos. Mas ela ardeu.

Essa brasa, no entanto, foi mantida lá no canto escuro brilhando quase apagada, quase um fósforo recém soprado. Lá longe, onde por mais que olhássemos dentro do outro não haveria nenhum brilho pra dizer que brincávamos com fogo. Nem calor.

era o inverno da carne.

"-Oi,

-Oi,

-Tem fogo?

-Não fumo...

-Ok.

-Tchau.

-Tchau..."

Essa foi a primeira vez que fui pego por seus olhos.

Deve haver uma primeira vez pra tudo.

Como aquela vez que você me olhou e viu meu olhar em chamas. E eu percebendo seu erro fechei os olhos. Mas já era tarde. Você ardeu comigo e eu percebi. Eu tentei proibir. Já era tarde. "É assim que as pessoas se queimam", eu pensei. E no seu calor entendi que você pensava a mesma coisa. Florescemos juntos e sorrimos no canto da boca ao refletir cada sorriso do olhar e da alma.

era a primavera da carne.

"-Oi.

-Oi.

-Tenho fogo.

- :) então ascende pra mim."

Essa foi a primeira vez que te peguei em meu olhar.

Deve haver uma segunda vez pra tudo.

Como aquela vez que nós nos olhamos e vimos que o fogo ia queimar tudo ao redor. Quando olhei fundo por muito tempo e vi coisas em seus olhos que eu nem quero explicar. Coisas que na verdade ninguém deveria passar a vida sem ver e sem entender. E que me faz sentir especial e vivendo numa sociedade secreta daqueles poucos que talvez tenham visto sua alma florescer em brasas vivas. Fazendo arder em mim. Naquela vez eu entendi que o calor das galáxias eram o brilho dos seus olhos e que nenhuma comparação era piegas o bastante. Vi o cansaço do seu olhar, a ressaca do mar e a formação de uma estrela. Aquela foi a vez que ardemos juntos enquanto ardíamos distantes.

era o verão da carne.

"-Oi.

-Oi.

-Seu primeiro verão carioca?

-Sim. É tão quente.

-Eu te entendo."

Essa foi a segunda vez que nossos olhos nos pegaram.

Deve haver uma última vez pra tudo.

Como aquela vez que nos olhamos por horas, dias e anos e eu vi a formação e a morte de uma estrela, vi o cansaço dos seus olhos e o brilho que deles me faziam enxergar. Vi a primeira das brasas e também vi Deus. Vi inclusive vários deuses. E coisas que eu não sei nomear.

Mas quando fui solto do seu olhar, eu também era um deus.

Você viu o cansaço dos meus olhos e todas as ressacas de todos os mares do Universo. De todos os universos. Você viu que eu te ansiava e isso te fazia querer se afogar em mim.

Quando te soltei do meu olhar, tudo em ti era mar. Tu era todos os mares e cada uma das ressacas.

Foi quando deus se afogou enquanto andava sobre as águas. Foi quando as brasas se apagaram com a forte convicção de nunca mais arder. Foi quando olhamos pro lado contrário e nunca mais ousamos cruzar um olhar.

era o outono da carne.

"-Oi.
-Oi.

...

...

-Tchau.

-Tchau."

Essa foi a última vez que nossos olhos nos soltaram...

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