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| (Arte por Loish Van Baarle) |
Rebecca fora acusada.
Seus olhos trêmulos mal conseguiam se concentrar nas palavras e extrair sentido algum do memorando. Ainda que conseguissem, sabia que não havia feito nada. Nenhum confronto direto, nenhuma manifestação pública de insatisfação, nenhum levante contra um arqui-inimigo, ainda assim ali estava a acusação. Será que havia sido em algum momento de descuido? Alguma câmera flagrou um momento que ela acreditava estar sozinha! Ou talvez um daqueles velhos mecanismos de captura de áudio que ela achou que já não mais funcionava! Algum colega ouvindo despretensiosamente suas palavras? Impossível. Rebecca não era tonta. Sabia se comportar em público, ou melhor, sabia quando deveria se comportar de forma zelosa. Odiar o sistema era um lugar comum. Todos odiavam, inclusive quem fazia parte dele. O que, de certa forma, transformava essas críticas em argumentos vazios. O sistema era podre e ponto, não havia nada que se pudesse fazer quanto a isso. Ao mesmo tempo, esse pensamento era o argumento de quem o defendia. Como pode alguém querer muda-lo? Isso é coisa de terrorista, gente de bem não faz isso. Deveria estar trabalhando ao invés de falar merda. A Tropa dos Inquisidores tinha então todo aval que precisava pra tratar qualquer um que parecesse fora do padrão como inimigo. Inimigo não só do Sistema mas do bem comum de forma geral. Daqueles que só queriam uma vida tranquila, que se esforçaram por aquilo que haviam conseguido. Como podia alguém querer destruir sonhos que se tornaram em realidade com tanto custo? Não, estes deviam ser eliminados. O Sistema ia cuidar disso. O Sistema ia cuidar de todos.
Suas mãos ainda seguravam o seu notificador com o memorando brilhando pra ela. Na verdade pouco importava o conteúdo dele. Talvez nem houvesse mesmo uma razão, pode ter sido qualquer coisa manipulada a ponto de virar um crime. Pouco importa. A Cúpula Julgadora vai passar por cima disso e pular diretamente para sua condenação. Afinal ninguém é acusado e sai ileso. Ser acusado já é o fim do caminho. Quando não te pegam nas ruas em flagrante, é pela justiça que criam os mecanismos necessários pra te tornar um fora da lei. Seu instinto tentava a todo custo pensar numa saída, alguma forma de contornar a situação com um apelo. Ainda tinha algumas horas até que viessem busca-la. Seu chefe podia sair em sua defesa, cancelar a acusação mostrando que deveria ser uma mal entendido, afina ela era exemplar em sua função. Há três anos estava submersa nesse trabalho. O mais novo conceito de vínculo empregatício onde você não precisava mais voltar pra casa. Por que gastar horas de locomoção e preocupações desnecessárias com um lar se você pode morar no seu trabalho? A empresa assim deixa de ser algo ruim que te oprime pra ser um antro de vida! Uma mistura de clube, shopping, balada e moradia. A possibilidade de se divertir e aproveitar todo momento debaixo das asas de quem te cuida e assim sobra mais que tempo pra focar no que de fato importa que é o trabalho. Por mais que odiasse, ninguém poderia negar que Rebecca era a melhor no que fazia. Aliás era isso que a fazia responsável apesar de sua personalidade. Era isso! Ela não podia ter feito nada de errado porque não havia feito nada além de trabalhar naqueles últimos meses. Ela podia provar!
Rebecca disparou pelos corredores. Apesar do ritmo de trabalho ser sempre intenso, as pessoas olhavam incrédulas pra garota negra que desesperada abria caminho entre drones de encomendas e máquinas de café até os elevadores mais próximos. Quando a porta do elevador se abriu, notavelmente ela estava no nível de comando. Nesse momento, Rebecca realizara que não sabia o rosto de seu empregador. Sabia seu nome, a marca que representava e recebia emails diariamente com motivações e agradecimentos pelos objetivos já cumpridos mas nunca um encontro pessoalmente acontecera. A arquitetura do 533° andar refletia a superioridade de quem trabalhava ali. Não só quem mandava e desmandava em todos os outros níveis abaixo mas aqueles que nasceram pra isso, se prepararam a vida inteira pra chegar naquele andar e usufruir uma vida de prestígios, acima da média. A única exceção era, claro, os atendentes que estavam ali pra servi-los. Mas até mesmo nestes podia se notar um ar de superioridade. Ao centro do grande saguão se via a imagem de uma senhora. Seus brancos cabelos ilustravam experiência e elegância para encaminhar todos que ali chegavam. Apesar de sua moderna mesa holográfica, não dispensava o charme de um bloquinho e uma caneta que imitava tinteiro. Apesar da voz ofegante e pouco sentido nas palavras soltas, a senhora não acompanhou o caráter de urgência no pedido da moça descabelada em sua frente. Ela deveria esperar pelo momento em que se patrão estivesse disposto a recebê-la. Funcionários não tem urgência. Chefes tem urgência! Porém, esperar ali era aceitar a derrota. Sabe se lá quando que ela conseguiria um minuto que fosse pra falar de um problema seu. Não podia esperar. Novamente, seus pés a impulsionaram em uma corrida sem direção. Certamente a sala seria a mais luxuosa, de mais destaque e seu nome estaria na frente. Não podia ser tão difícil. E não foi.
Passara por alguns corredores monumentais, não mais os coloridos como os que comportavam o ar descolado que abrigava a ala dos funcionários, os corredores do 533 eram verdadeiros boulevares com direito a paisagismo e detalhes de arquitetura que lembravam a belle epóque com um toque futurista dos leds em toda e qualquer superfície. Rebecca não lembrava de ter visto alguma vez o céu tão limpo e ensolarado e talvez por isso mesmo se recordou que ainda estava dentro de um edifício e que aquilo era mera holografia. Holografia esta mais perfeita que a realidade. Mas então não havia mais dúvida. Estava na alameda principal e as inicias de seu chefe brilhavam em branco sobre a fachada em Art Nouveau no final do boulevard. Ao chegar no glorioso hall de recepção, a menina passou direto pelos seguranças e a bancada de atendimento. Abriu as portas do salão principal e então caiu ao chão em seus joelhos. A sala estava deserta. A atendente antes ignorada, calmamente se aproximou da menina que mirava o vazio e informou:
- Ele não está, porém já foi notificado da sua acusação. Lamentou e desejou boa sorte no julgamento. Agora, com licença, os seguranças vão acompanha-la até a saída.
Seus braços foram suspensos para levantar o resto do corpo que deslizava pelo mármore gélido. Sabia que jamais a deixariam ser detida pela Tropa dos Inquisidores ali. Nenhuma empresa precisa de portais de notícia ligando o nome de sua marca à uma delinquente.
Em seu caminho de volta, Rebecca pôde olhar pela última vez os rostos daqueles que viviam a mesma realidade paralela que ela. A maioria nem mesmo a conhecia, mas a expressão era a mesma: uma deliciosa mistura de vergonha e satisfação. O que ela queria? Invisibilidade? Passar impune uma vez que já sabiam que ela era culpada pelo simples fato de ter sido acusada? A recompensa de quem fica dentro da linha é poder assistir as consequências de quem é capturado. E fazem isso com gosto. Mesmo os mais amigos diriam "eu te avisei". E avisaram mesmo. Em sua retrospectiva interna, Rebecca lembrou que nunca foi disciplinada como deveria ser. Quando criança, suas perguntas incomodavam demais seus professores. Em sua adolescência sempre se descolou do formato de jovem padrão, simplesmente não ligava pra se tornar tudo o que diziam que ela deveria ser. Uma vez adulta, ainda assim colocava suas vontades e gostos acima das decisões mais convencionais de emprego, sexo e lazer. Rebecca se sentia pequena dentro de si mesma. Sabia que não era inocente e que não havia outro fim que poderia ter. Era culpada e não havia mais defesa.
Rebecca fora julgada.

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