Faltam dez dias para eu completar sete meses da minha jornada em terras irlandesas.Sete meses imerso em uma cultura completamente diferente. Sete meses longe de casa.Porém, assim como o método científico aconselha, é de longe que podemos estudar melhor o objeto em foco. É quando temos um outro exemplar é que podemos atribuir um grau comparativo que proporcione uma melhor leitura do que estamos vendo. E é por isso que quanto mais tempo eu estou distante da minha terra natal, mais eu aprendo sobre ela. E mais eu sinto falta de coisas que, até então, eram invisíveis de tão onipresentes. E sem dúvida o que mais tem me feito falta é o calor.
Não tem como fugir do óbvio de dizer que são as praias cariocas que rapidamente ilustram essa ausência no dia a dia. Como elas fazem falta mesmo em quem não as frequenta todo dia. Mas além do calor de um dia de sol, de poder andar na rua sem camisa ou em trajes mínimos e tomar uma cerveja estupidamente gelada, me falta também o calor humano. O calor da cidade, da muvuca, das pessoas que ali vivem. E é notável numa cidade fria como o calor faz diferença. Basta alguns minutos de sol na Shop Street (principal e mais movimentada rua de Galway) e logo ela é tomada por pessoas de todos os tipos, comerciantes e artistas de rua que dão vida ao calçadão medieval. E logo que o sol se vai, leva com ele também esse lampejo de agito.
E se engana que acredita que este calor é sinônimo de uma intimidade já existente. Este calor está presente mesmo entre aqueles que mal se conhecem mas possui algo em comum. Basta ter as mesmas cores na camisa de futebol e ali já se cria a mais gratuita das empatias. Suficiente para durante 90 minutos de bola rolando numa tela pequena e distante num bar, um grupo de desconhecidos cantar, comemorar, chorar e se abraçar numa histeria coletiva. E mesmo aqueles de uniformes rivais entram na brincadeira de zombar e provocar o adversário. Nunca se é apenas platéia. Tudo é palco e não respeito torcedores que não cantam.
Esse mesmo calor poderia ser notado até mesmo nos ambientes mais sensatos e bem educados. Mas de novo ele faz falta. Lembro a primeira vez que questionei um professor aqui quanto a sua avaliação do meu trabalho e sua cara de surpresa. Não que havia o ofendido mas parecia desconcertado ao ver sua palavra sendo colocada em questão. Mas ainda quando ouviu um "eu discordo". É preciso inquietação para gerar conflito e esse conflito é essencial para fomentar um debate, seja em sala de aula ou fora dela.
E é ao ver o mais longe que uma sociedade fria consegue ir é que percebemos como faz falta uma temperatura mais alta. Num protesto onde faixas e placas são produzidas industrialmente e distribuídas entre os manifestantes, onde a polícia atua em conjunto com os organizadores da marcha e o caso mais grave de comportamento de um manifestante é xingar o presidente em rede nacional, é claro que não pode haver um saldo positivo pra quem clama por mudanças.
Como bem explica a ciência, novamente, calor é movimento. E ainda que as vezes calor demais cause incômodo, ainda assim é melhor que sua ausência.
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