Uma cobra na maleta


Contextualizando: essa é a segunda parte do texto "À esquerda do meu sofá. Dito isto, posso seguir... No segundo turno dessas eleições (do lado esquerdo do pensamento político) houve várias formas de expressar seus sentimentos na urna. Houve o voto de quem era convicto no PT: o voto da esperança; houve o voto de quem era desconfiado do PT mas aplicou o voto de veto ao PSDB: o voto de segurança; mas também houve quem repudiava ferrenhamente o PT, não encontrava argumentos para sua escolha e, ainda assim, aplicou veto: ou o voto de "quem tem cu, tem medo".

Identifico essas divergências passando o olho superficialmente pela situação e com compromisso apenas com minha sensibilidade. Mas o fato, prático e fora do mundo das ideias, é: o PT venceu por uma diferença insignificante de votos e, a grosso modo, o culpado é o próprio partido - que abandonou bandeiras e desobstruiu caminhos para a direita e o pensamento conservador, hoje maioria absoluta no Congresso. Mas existe uma outra causa, a qual me faz escrever essa introdução e que somente nessas eleições me fez perceber o quão nociva era. A militância do nulo.

No lado sombrio da esquerda, onde habitam criaturas filiadas ao PSTU, intelectuais vaidosos e a esquerda caviar, há quem repudie o resultado das eleições e a vitória do PT. Há quem dispense comemorações. E por mais que sejam justas e irrefutáveis suas reivindicações (como a fundamental democratização da mídia, as reformas política, previdenciária e rural, valorização da educação e saúde pública, etc) e a distância do PT de contemplá-las por inteiro, no dia 27 de outubro de 2014, caiu Aécio Neves. Junto com ele, caiu um projeto extremamente elitista de país. Caiu todo um setor conservador da sociedade. Caiu a Veja, a Folha, a Globo e o Estadão. Caíram pastores e preconceitos, o etnocentrismo e o machismo. Caiu o ódio ao pobre, aos direitos humanos e ao assistencialismo social.

Ainda tenho dificuldade, admito, para entender de que forma isso não pode ser considerado vitória. E abrindo margem para minha ingenuidade e generalização, só posso acreditar que os que não a enxergam o fazem com mesa farta, dinheiro no bolso, capital cultural e todos os privilégios de uma classe média etnicamente majoritária. A não se que a lógica seja mais simplista: a grande parcela desses eleitores, na qual me incluo, não terá a realidade significativamente transformada independentemente de quem assuma. Assim o voto em branco seria - maquiado pelo desejo de mudança que jamais virá com as presentes opções - uma forma alternativa de indiferença aos que viveram as transformações sociais dos últimos doze anos. E olha qu e eu não tô falando de pouca gente.

Esse ponto é extremamente pessoal, ressalto. E ele repousa na seguinte condicional: penso - falando de esquerda pra esquerda - que um militante do Aécio jamais nos tiraria um voto. Um militante do voto nulo, sim. Enquanto a direita se mantém unida e coesa, a esquerda, por outro lado, racha (na militância pelo nulo) e divide seus eleitores. E como quando um lado se cala o outro se fortalece, não deu outra. Quem jamais votaria Dilma, votou Aécio. E quem jamais votaria Aécio, votou nulo. E por 3,28% o PSDB não voltou ao Governo. Se essas eleições fossem um filme do Tarantino, a militância do voto nulo teria sido nossa aliada discursiva. Coerente nos anseios e bandeiras. Mas que na prática, no crível e palpável, nos levaria uma mala cheia de ideias... com uma Mamba Negra dentro.

De Tarantino ao Uruguai. Da mamba negra à uma das grandes referências da esquerda: Pepe Mujica. Quando estive em Montevidéu, acabei sem querer encontrando uma passeata de esquerda. Numa conversa rápida com uma militante, comentei que Pepe era como um Deus no Brasil. Recebi uma resposta fria e natural, "eu sei". De fato, Mujica é uma referência em qualquer lugar do mundo. Eles sabem disso. Mas a questão é que em cada esquina daquelas ruas, seja na Ciudad Vieja (o cetro antigo) ou Pocitos (o bairro nobre), os prédios, janelas e carros bradam uma bandeira vermelha, azul e branca (parecida com a da Rússia) ao lado da do Uruguai. Mas ela não é a do partido de Mujica. É a "Frente Amplio", a bandeira de uma coligação de centro-esquerda a qual o partido de Mujica faz parte. Um grupo que, com todas as diferenças e pluralidades da esquerda, consegue sentar, conversar, e faz questão de se identificar e se reconhecer através de uma bandeira. Isso faz toda a diferença.

{pausa dramática para um relato pessoal} Quando estive ligado ao movimento estudantil, lá pra meados de 2009, vi de perto uma realidade a qual me envergonho muito, exceto pelo fato de ter aprendido que a política no nosso país já começa errada desde o berço. Numa plenária de estudantes secundaristas, onde a principal bandeira é a da Educação, os alunos preferem, antes de alinhar suas igualdades, ressaltar o que os difere. No fim, discutir se 50%, 70% ou 100% dos royalties vão pra educação (uma das pautas da época) é o suficiente pra todos se odiarem, não organizarem passeatas em dias diferentes e ainda não reconhecer a legitimidade das que não sejam as suas. De volta a 2014, já vi gente dizer que, caso o PSOL se alinhe ao PT no Rio paras as eleições de 2016, irá perder um militante. Ou seja, esse roteiro de malhação que contei sobre o movimento estudantil também acontece na política de gente grande! E diante de uma aliança pra tirar o RJ de uma prisão de mais de 20 anos na mão de mafiosos, a reação de alguns ainda é o separatismo.

Não temos uma "Frente Amplio". Temos focos de uma esquerda com pensamento purista. Que antes de (pensar em) sentar pra alinhar projetos em comum, se fecha pra discutir quem tem o cavalo mais puro sangue, mais digno de se governar. Só que enquanto o puro sangue atinge um terceiro lugar (supostamente) expressivo ou algum outro resultado de valor simbólico, um pangaré cruza a linha de chegada e enriquece os empreiteiros que apostaram nele. {pausa dramática para que minha analogia não perca a força} A única vez em que um cavalo híbrido da esquerda chegou ao poder, a realidade do Brasil foi profundamente alterada. 

Enquanto a vaidade, o purismo ou a indiferença forem determinantes de votos na esquerda, a mudança só se retardará. Enquanto as diferenças da esquerda forem mais significativas que as similaridades, teremos mais inimigos do que já existem. Quem não pensa assim, pra mim, é pior do que a direita. E quanto a esta minha postura, peço emprestado o bordão de um grande amigo¹: "respeita meu preconceito".

¹ = GALVÃO, Filipe.

Um comentário:

Unknown disse...

esse poderia se chamar "à direita do meu sofá" e completar os lugares diante do elefante na sala de estar.