Dividia minha
primeira casa com uma garrafa quando minha peregrinação começou. Morávamos em
uma geladeira de um bar qualquer, mas não ficamos lá por muito tempo. O dono do
bar resolveu nos negociar por algumas moedas. No mesmo dia fomos separadas, eu
e a garrafa. Ela ficou com aquele que nos tinha comprado. Já eu, fui jogada no
chão. Alguns chutes daqui, outros dali e veio minha primeira chuva, e que
chuva. Lembro bem do torrencial formado
no canto da calçada, forte o suficiente para me arrastar de um lado para outro,
e sempre para corredeiras mais fortes.
Quando a chuva
parou eu já não sabia onde estava. Resolvi ficar parada. Alguns dias passaram e
não ousei sair do lugar, afinal eu tinha tempo, pelo menos cem anos. Fazia
muito calor, mas nada forte o suficiente para me decompor. Quando eu já não
aguentava mais aquele lugar, veio outra chuva, dessa vez tão forte que fui
desembocar em um rio. Finalmente eu pude viajar sem interrupções. Alguns peixes
tentaram me beliscar, mas nenhum com muito sucesso, afinal que peixe
conseguiria me engolir? É claro que eu já havia escutado histórias de baiacus
se engasgando com outras de minha espécie, mas sempre achei estas muito
fantásticas.
Percorri
quilômetros a fio, e durante muitos deles vi outras como eu. Algumas estavam
paradas as margens do rio, tomando banho de sol, outras paravam em pequenos
lagos e formavam grandes comunidades, atrapalhando os moradores nativos. Eu não
pretendia atrapalhar ninguém, queria apenas conhecer o mundo, já que eu não
tinha mais uma casa. Durante meses segui o fluxo do rio, conhecendo mil
maravilhas. Em alguns momentos pensei que ia afundar, mas por sorte eu era de
uma geração mais nova, meu material era leve o suficiente para boiar por anos e
mais anos, tantos que eu mesma não saberia conta-los.
Anos se
passaram até meu encontro com o grande oceano acontecer. Agora o mundo estava
em minhas mãos, bastava deixar a correnteza me levar. Também lá, no mar,
estavam outras como eu, a grande maioria vivendo com peixes (descontentes) no fundo
do oceano. Resolvi descer pra ver se convencia algumas a velejar comigo, e
enquanto me preparava para discursar sobre um mundo a ser descoberto acabei
sendo engolida por um ser verde com uma casca enorme nas costas. Não fiquei
triste, havia encontrado uma nova casa.
A Tartaruga
Foi a primeira
vez na vida que me engasguei com uma alga marinha. Eu já havia escutado outras
como eu falando que ultimamente haviam dessas pelo mar, e que algumas,
inclusive, eram suficientemente grandes para nos sufocar. Nunca acreditei
nessas histórias, até que eu mesma engoli uma. Por sorte não era das grandes,
mas agora já não me sinto tão segura a ponto de comer qualquer alga por aí. Já
não bastasse elas estarem desaparecendo, agora ainda resolvem ficar duras. Que
vida dura, essa minha de tartaruga.

2 comentários:
Olha que tô há tempos querendo ver algum tipo de conto literário teu, e valeu a pena esperar. Tá foda!
Mto bom
Postar um comentário