repetição em sol menor, síncope em compasso ternário













hoje eu estou meio imprudente sobre como contar uma história: quero experimentar. principalmente por ser minha história, eu gostaria de ter uma narrativa clássica, mas todo mundo faz essa narrativa clássica. esse início, esse meio e esse fim sempre aparecem nos mesmos lugares. todo mundo sabe os pontos em que as histórias fazem suas viradas. é mais ou menos ver o sol nascer por anos seguidos e não ter dúvidas que no outro dia ele nasce de novo. mas hoje vou tentar fazer diferente! hoje meu sol vai nascer meia-noite e vai se pôr dois minutos depois. hoje eu vou acordar no nascer do sol e vou ficar acordado até ele sumir no ocidente e vou ver o pôr do sol da minha laje, do lado da minha cachorra. hoje vou…

TRIIIIIIIIiimmMMmmmmMmMMmmmMMMmmm, disse o despertador.


Eu olhei meio que de lado: 6 e 15 da manhã e meus olhos verde mar já estavam abertos muito antes do despertador me gritar. acho que tava tendo aqueles pensamentos que só rolam quando a gente tá sonhando mas meio que ainda acordados. e eu sei bem como é isso. todo dia deitando 4 da manhã e acordando 2 horas depois me deixam em constante sonho lúcido mas é sempre difícil lembrar o que eu tava pensando na hora. teve um dia que eu fiz uma poesia belíssima sobre algo que não lembro mais. bem, pra mim pelo menos foi belíssima, não sei pras pessoas em geral. era uma carta. mas não era uma carta, era a vida de alguém.



Um tiro, uma janela estilhaçada e um corpo se vai ao chão…
Sempre pensou que haveria alguma beleza quando chegasse a hora...
Talvez uma mulher bonita ou um anjo iluminado que o guiasse para o além-mar.
Talvez entre árvores ou olhando o movimento das ondas.
Talvez sentisse alguma paz…
Mas tudo o que pode ver e sentir foram um céu nublado enquadrado na velha janela do 4˚ andar e o cheiro de piso de madeira encerada misturada com o vômito que não pôde conter.
Seu leito foi o chão da sala. Um canário engaiolado como último companheiro...
As últimas vozes vieram da tv.
Não pensava em nada.
A última sensação foi a dor lancinante que cortou o lado esquerdo do peito, causada por um velho cansado que sem poder mais bater, jogou a toalha e abandonou o ringue.
O último esforço foi o de continuar a respirar.
Não havia beleza, anjo ou esperança.
Não houve tempo de uma carta para a filha.
          Naquele corpo já não havia vida.
Morto no quarto dia de fevereiro do ano 2011 às 14 horas enquanto almoçava e assistia ao jornal.
Nesse dia, como em qualquer dia comum, choveu.
               Além dele, algumas outras milhares de pessoas morreram. Todas anônimas.
Quase todas queriam continuar a viver.
Todo fim é triste e solitário.




TRIIIIImmmMMMmMmMMmMMMMmmMMmmMM, disse o despertador.



são 6 e 25 da manhã e o modo soneca acabou de despertar. que porra é essa que eu sonhei? acho que tem a ver com toda aquela porcaria que passa na televisão. preciso urgentemente parar de assistir jornal e os caralhos. outro dia um cara viajou do rio pro nordeste só pra reconquistar a própria mulher que nem era mulher dele ainda. ele prometeu se mudar pro rio e ela prometeu ficar esperando e acabou não dando certo e ela também tinha olhos verde-mar. eu lembro que ele ficou falando, naquela manhã que o cheiro do café que fez pros dois ainda estava no ar, … 
Houve há muito tempo , num lugar que nunca existiu, um homem que não nasceu. Ele era conhecido pelas coisas que não fazia e professor do que não sabia. Muitas vezes quis deixar de ser famoso, não se sentia bem assim. Mas quanto mais sumia, mais era lembrado por isso, se tornando assim mais famoso e consequentemente aparecendo mais.
Chegou ao ponto de estar em lugares que nunca foi e fazer proezas que nunca fez. Quanto mais sumia, mais aparências diferentes adquiria. Era homem, menino, mulher ou derrepente não era ninguém!


abri os olhos de novo. dessa vez com uma lágrima e com a alma pesada, olhando no relógio são 6 e 34. vou botar essa porra pra tocar às 8, foda-se a aula das 7 e meia.


Querida Marina, a vida tá boa. Espero vê-la novamente o mais breve possível e cumprir o que te prometi. Te amo e cada dia sinto mais saudades de ti. Nos casaremos em breve, te juro.
Acredito que queira saber um pouco sobre o que estou fazendo no Rio de Janeiro, então lhe farei um breve resumo: Entre a ultima carta que lhe mandei e esta não há muita novidade. A diferença agora é que finalmente fui promovido e poderemos nos casar dentro de 3 ou 4 meses. Estou muito feliz e mal consigo dormir pela expectativa. Já estou escolhendo a nossa casa e provavelmente será em um bairro chamado Glória (Dei uma risada agora. O mesmo nome de sua avó.), ela é pequena mas será perfeita para nós enquanto não tivermos filhos mas até lá você talvez já esteja trabalhando e poderemos dividir as contas de uma casa maior.
O amigo Paulo que tanto lhe falo em minhas cartas infelizmente morreu em um acidente de trânsito. Sinto muito sua falta e sua mulher e filha estão sofrendo muito. Sempre que posso as ajudo com alguma coisa... Minha mãe ainda sofre das dores renais mas agora estão muito menores, ainda não sei pra onde a mandarei quando eu e você nos casarmos (É tão bom falar eu e você), talvez ela more com minha irmã em uma cidade chamada Nova Iguaçu, não muito longe do Rio.
Mas voltemos a falar sobre coisas felizes.
Todas as noites sinto seu cheiro ao deitar na cama e pelas manhãs acordo com o gosto de sua boca na minha. Sinto tanta a sua falta minha querida Marina, rio sempre que passo em frente ao mar lembrando dos tempos que parávamos em frente à sua casa e víamos o pôr do sol no fim do horizonte. O cheiro também me lembra o cheiro das suas roupas. Te amo minha querida. Todos os dias te amo.
Quando olho pro céu penso que você também está olhando e murmuro comigo mesmo que estou te dando as estrelas. Sei que você não gosta desse “romantismo barato” mas não consigo evitar.
Sonho com o dia que irei te desfrutar e seremos realmente uma só carne. Imagino sua pele macia em meus braços, minha morena.Não sei mais o que poderia dizer, sinto saudades incríveis, e acho que se tivesse a chance de escolher de novo, nunca teria saído de perto de você, mesmo que isso custasse o futuro que estou criando. Mas agora cheguei ao fim do caminho que pretendia e finalmente iremos nos unir novamente.
Te amei cada dia destes cinco anos que não te vi e hoje te amo muito mais do que quando saí de perto de ti. Espero que me perdoe. Sei que já perdoou mas preciso me desculpar de novo.


Te amo.


Seu futuro marido, Pedro.


P.S.
Espero ansiosamente suas novidades...


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Para Pedro, com amor...


Querido, durante anos aguardei o dia em que finalmente meu sonho se tornaria realidade. Você não sabe o quanto esperei pelo dia em que finalmente casaríamos. Realmente seria um sonho a se realizar, mas o fato é que mais que nunca preciso hoje ser franca com você: Não sou mais a Marina que te conheceu.
Em outros tempos teria chorado de felicidades ao ler sua ultima carta, mas mudei, simplesmente mudei. Você precisa entender todos os anos que aguardei você, que sentei na varanda e imaginava você chegar ao longe com seu lindo sorriso. Todas as vezes que via minhas amigas felizes com seus parceiros e sabia que você estava distante. Sabia que você estava comigo, mas estava distante…
Tudo o que mais queria era te amar como te amei no começo mas o coração é simplesmente um músculo que às vezes se cansa de bater e o meu já não aguentava mais bombear o vazio nas veias…
Conheci alguém que é bom pra mim e com o tempo irei amá-lo.
Desculpe por não ter dito nada até então. Talvez acreditasse que o dia da separação nunca chegaria mas ele veio forte como uma tempestade de verão e essa separação destruiu meu lar.
Foi você que me ensinou uma vez que as vezes é necessário recomeçar destruindo todo o trabalho se a fundação não for boa o suficiente. Obrigado pelo amor dedicado a mim.
Sei que no fundo você me ama e acredite por favor que também te amo, mas não do jeito que amava e isso pra mim não é suficiente. Não me procure, deixa o amanhã dizer. No fim tudo se resolve.


Te amo, meu amigo.


Com carinho, Marina...


PooOOoOOOoRrrRAAaAaaaa, disse gentilmente o despertador.


cara. Eu não queria esse sonho. ele é ridículo. não sei porque eu assimilo essas histórias românticas. mas foda-se, não vou cortar o barato do meu subconsciente. caralho. olha essa porra de relógio 8 da manhã e eu deitado. todo dia é a mesma merda e hoje eu disse que ia ser diferente. falei que hoje chegava na hora na aula. professor já não tá mais aceitando minhas desculpas… mas a verdade é que eu moro tão perto que dá tranquilamente pra dormir mais meia hora. 
Tum pá, tum pá tum pá pá tratratratratratraaaaaaaaa pá pá truuummmm pá… Eu passo de ônibus. Eu olho as pessoas na rua. Elas estão tristes, solitárias, ansiosas… Eu olho e vejo que elas estão sozinhas. Eu olho meu reflexo em um vidro qualquer. Eu ouço Miles Davis. Eu estou triste, solitário, ansioso. Eu ouço um solo de bateria em sketches of spain. Eu estou…


AcOOoorRdaaAfIIiiiLlhoooOOoooDdaaAAAPuUUTTtaAaA, disse o despertador.


Minha mulher morreu enquanto a gente transava ouvindo essa música.


ACoOOOoOrRrrrRRRDaaAAcCcCaArRrAAaAlLHhHOoOoo. Ele disse mais uma vez.


enquanto minhas mãos passam pelos meus olhos remelentos eu rio pensando que o autor das minhas loucuras não sabe a hora de botar um ponto final. PORRA!!!! São 10 e 45, passei direto. perdi toda a aula da manhã. DE NOVO. foda-se, o jeito é dormir pq dá pra chegar pra aula das 2 da tarde.
Numa comunidade carioca eram comuns os dias violentos, todas as cores de traçantes rasgavam o céu, substituindo as estrelas cadentes. Elas por sua vez eram histórias contadas para os filhos sobre um passado onde a luz da terra era fraca e a noite exibia milhões de estrelas mais.
Acontece que era comum nessa comunidade todo o tipo de violência e todas as pessoas conviviam diariamente entre tiroteios. Tanto que nenhuma delas ligava de se proteger, de correr.
O barulho do tiro e a certeza de ainda estar vivo. Vez ou outra alguém era atingido, vez ou outra era grave o suficiente para matar. Num dia qualquer o rapaz que voltava distraído do trabalho com seus fones no ouvido percebeu uma agitação e logo em seguida a correria. Correu também sem saber e ao chegar do lado de uma mulher puxou os fones e gritou “O que aconteceu?”  “A chuva!”  ela disse enquanto corria para baixo da marquise mais próxima.


esse sou eu. aceitando o erro com naturalidade mas correndo pra baixo de alguma proteção sempre que algo bom e natural acontece... me repetindo em sol menor, acordo com o coração sincopado. Mas quem nunca?


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